Água
 Foto: Divulgação Web
Desde os primórdios, o homem cultua o que é belo e raro, e assim é com as esculturas, obras de arte, jóias, pedras preciosas e os metais, que quanto mais raros, mais valorizados.
Talvez seja essa a razão de encontrarmos tanta dificuldade com a consciência coletiva sobre o valor e a importância de se preservar a água. Não é só porque ela parece abundante, e que frequentemente ouvimos dizer que nosso planeta bem podia se chamar água, em vez de Terra, que vamos viver desperdiçando.
Já dizia a velha canção sem hipérbole alguma, que "moramos num país tropical abençoado por Deus", e é bem verdade que aqui a natureza não economizou em nada. De toda a água doce disponível no mundo, 11% está em nosso território. A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, é a mais rica não só em espécimes da fauna e da flora, o que garante a maior biodiversidade, mas também como o lugar mais opulento em água potável superficial.
Além disso, somos donos de gigantescas reservas em quase todos os Estados, exceto no semi-árido do nordeste. Sem contar com os aquíferos subterrâneos resultantes da contínua atividade cíclica hídrica, onde uma parte da água proveniente de rios, mares lagos etc. evaporam e retornam à superfície em estado líquido sendo atraídas pela força da gravidade penetrando nas rochas porosas e constituindo um manancial de área maior que os territórios da Espanha, França e Inglaterra juntos. Sem nos esquecer da menção ao pantanal, considerado a maior planície de inundação.
O Aquífero Guarani, um dos maiores do mundo, tem dois terços localizados em território brasileiro, nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e o restante dividido entre Argentina, Paraguai e Uruguai.
Calcula-se que seu potencial seja capaz de abastecer quase o dobro da população brasileira, cerca de 360 milhões de pessoas com seus mais de 40.000 km³ de água, índice superior a água de todos os rios e lagos do planeta o que nos garantiria abastecimento sem reciclagem ou reaproveitamento por milhares de anos.
Tudo isso já seria mais do que suficiente para nossa subsistência, no entanto, uma recente descoberta aumentou ainda mais nosso potencial hídrico: o Aquífero Alter do Chão, um reservatório fronteiriço que o Brasil divide com a Venezuela, a Colômbia, Equador e Peru, tem uma extensão 3 vezes maior que a do Guarani, já considerado o maior volume de água potável do mundo. Localizado sob os estados do Amapá, Pará e Amazonas, tem volume d` água suficiente para abastecer cem vezes a população mundial com 86 mil km³ de água doce disponível.
Foi essa grande disponibilidade de água que nos fez viver até bem pouco tempo com a ilusão de que nunca sofreríamos pela sua falta. Ilusão mesmo! Vide as sucessivas secas, apagões e racionamentos que volta e meia temos que enfrentar.
Não podemos esquecer que embora tenhamos muita água disponível sua disposição é desigual. A região Amazônica, por exemplo, corresponde a 54,48% do território e concentra uma população de 1 habitante por km², enquanto a Região Norte com seus 79,7% de potencial hídrico e 7,8% da população. A situação é semelhante quando se compara a situação continental.
A América do Sul descansa 6% da sua população em 26% das águas mundiais, enquanto os asiáticos que são 60% do planeta, têm que rebolar com seus 36% de recursos hídricos.
Embora o mundo tenha 71% da sua superfície coberta por água, apenas 3% é doce e somente um terço é acessível. Todo o resto estão nas geleiras, calotas polares e lençóis freáticos profundos.
A falta de saneamento, também é um agravante, são 3 milhões de mortes anuais, na maioria crianças, e mais de 1 bilhão de doenças provocadas pelo consumo sem tratamento.
Tanta abundância nos fez esquecer que a água é um bem finito, como nossas professoras ainda em nossa primeira infância, muito bem nos ensinaram. É um recurso natural não renovável, e quando foi que demos a esse ensinamento o devido valor?
Sustentamos ao longo da nossa existência uma cultura de desperdícios. Horas lavando o carro nos finais de semana, no banho, escovando os dentes com a torneira aberta, e por aí vai. Hábitos passados de nossos avós para os nossos pais, que por sua vez nos repassaram e que responsavelmente não devemos tocar adiante.
O fato é que a atual carência de água é o resultado de uma combinação de efeitos naturais, demográficos, sócio-econômicos e também culturais. Temos poluído indiscriminadamente nossos mares, lagos e rios, despejando toneladas de resíduos sólidos diariamente, exterminando a biodiversidade marinha e espalhando doenças que matam a nós, e nossas crianças.
Está na hora de abandonarmos a condição de utilizadores da natureza e a crença de que com a tecnologia resolveremos todos os impactos negativos que causarmos ao ambiente.
Declarações da ONU afirmam que se o consumo indiscriminado permanecer, até 2025, 2,7 bilhões de pessoas vão sofrer com a falta de água.
A água é indispensável, e depois de todas estas constatações, o que se pergunta é: de que valerá tanta riqueza, tanta conquista, se não tivermos a disponibilidade de nosso bem maior, ao qual ouso até chamar de ouro branco?
Uma importante reflexão que merece sua total atenção.
Claudia Cataldi é jornalista e presidente do Instituto Responsa Habilidade
E-mail: presidencia@responsahbailidade.org.br
Twitter: @claudiacataldi
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